quarta-feira, 13 de março de 2019

Heranca - por Ludwika Piekut

Herança

Pela janela fechada
do avião
que me levava
p'ra longe
joguei
um estilhaço
de espelho
                   Deixei-o caído
                   no solo
                   do meu país
                   Mas antes
                   marquei nele
                   meu rosto
                   Aquele
                   que nunca mais terei
                   do qual
                   ele se livrou
                   imediatamente
Talvez agora
pouse
no campo de trigo
refletindo
a intrusa cara
da papoula vermelha
fazendo pouco
da lembrança
dos meus lábios
festivamente maquiados

sexta-feira, 8 de março de 2019

Tributo a Mulher - por Francisco José dos Santos

                         
                              Tributo a Mulher


                         Divina e graciosa es tu mulher.
                         A mais preciosa criação de Deus.
                         O presente que todo homem quer.
                         Que da vida, encanta os dias meus. 

quinta-feira, 7 de março de 2019

Triste dia - por Gil Cléber



Pela janela
Vejo
        uma esquina
        uma porta aberta,
E o rumor do dia nublado
É como o vento num velho impermeável,
Desses com que se sai à chuva.
Uma bandeira pende num mastro,
Mas não posso vê-la,
E uma criança doente
Abre os olhos para a escuridão.
Os passos no sobrado
Falam-me de uma presença,
E o vento nos caibros da casa velha
Assovia
Lembrando lábios antigos.
No jardim
Uma pétala cai,
E o dia é como uma ostra
Em cujo interior
A pérola
Dói.




(30/10/2000 - do livro "Um Corpo sem Sombra)

domingo, 3 de março de 2019

Permaneço ---- por Ludwika Piekut

     
      Silenciaram as luzes
              e a aurora apagou
      Poente descoloriu
              e escureceu os ventos.
       Perdi você.
              Como emudecida sombra
              sugada pela teia do tempo
                        esvaindo
                                 permaneço

                                     06.2016

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Trocando em miúdos - por Guaracy Muniz Carioca


Tomei uma dose de bitter para adoçar a boca pela manhã. O sol, o vento de agosto, correndo pelas árvores, um mês atrasado. Sibipirunas e Jacarandás em pleno florescimento e o mato ainda se recuperando da seca prolongada. Volto minha mente para o passado.
O adolescente ainda criança pegava ônibus e não entendia muito bem porque as janelas iam se ocupando primeiro da frente para trás, na época em que se saltava pela frente dos ônibus e ainda havia os trocadores para o motorista se concentrar no seu trabalho de dirigir. Eu gostava de me sentar na frente, onde podia ter a sensação de estar dirigindo também. Mas Antônio não. Antônio sentava atrás, no banco alto que fica sobre as rodas traseiras e observava. Negros, pessoas mal vestidas e pessoas obesas eram as últimas a ganharem seus pares. Homens sentavam-se ao lado de outros homens e mulheres sentavam-se ao lado de mulheres. Às vezes uma mulher branca ficava de pé se um homem negro estivesse sentado na janela. O último lugar vazio era sempre visto com estranheza. Poderia estar sujo, molhado ou ser alguma armadilha. Um lugar vago na janela por detrás dos bancos altos da frente era um ‘Siege Perilous’, onde mulher recatada nenhuma que não estivesse morrendo de dores nas pernas sentaria caso houvesse um homem sentado ali ao lado. Em quase vinte anos pouca coisa mudou. Somos preconceituosos o tempo todo. Até os cães sofrem com isso; um pit-bull é um cachorro assassino, um cão branco, pequeno, filhote e saudável tem muito mais chances de ser adotado que um cão grande, preto, doente ou mais velho. E eu olho minhas crianças e elas correm e rolam e brincam e brigam e são todas muito parecidas nessa ansiedade de querer viver plenamente.
Outro dia o trocador não tinha troco pra ninguém, faltavam-lhe moedas de dez centavos. E quem iria discutir por causa de dez centavos num ônibus lotado, cheio e quente?  Era injusto e desonesto, mas era uma briga que ninguém queria comprar. Nem Antônio. Um par de dias o mesmo episódio aconteceu, no mesmo horário e na mesma linha. Antônio querendo ajudar pegou seu pote de moedas e contou todas as de dez centavos. Havia quase dez Reais em moedas, era pesado. Levou separado numa sacola todo aquele metal. Entrou no mesmo ônibus, no mesmo horário e entregou ao trocador.
-Tem dez Reais aí em moedas. Pode contar.
Meio desconfiado o trocador esperou o ônibus subir na ponte Rio-Niterói e foi contando moeda por moeda. Estava certo. Deu a nota de dez Reais a Antônio, não agradeceu. Por mais preguiça ou dificuldade que ele tivesse aqueles dez centavos durariam por pelo menos uma semana. Ao final do expediente, voltando pra casa, Antônio calhou de pegar o mesmo ônibus. O mesmo trocador. Não tinha dez centavos de troco. Nem se lembrou do rosto de Antônio. Não era falta de troco. Era falta de honestidade mesmo.