terça-feira, 3 de março de 2020

SEGUNDO ESTUDO ANACREÔNTICO – AFÃ DÓRICO - por Vitor Ferreira


Firme a casa do Pai,

Ame as armas do Caos,

Force a porta que cai,

Fique seguro nas mãos.



Pátria cerca após,

Beijo doce do breu;

Creta, pira em Cós;

Braços, dar-te aos teus.



Monte o dorso corcel.

Lance o peito atroz.

Verta a alma ao céu.

Morte ao amigo feroz.

    

Campos de Zeus está,

Calma coro temor,

Rasgue o tafetá,

Deite-se, solo de amor.


sábado, 29 de fevereiro de 2020

SAUDADES DE UM VELHO AMIGO - por Guaracy Muniz Carioca

Será que te encontro? E te reconheço?
Será que me reconheces?
Será que daí escutas
as minhas preces?

Aquele vinho que não tomamos juntos.
Tantas histórias, tantos assuntos
Troca de experiências em meio a brincadeira.
Um ipê florido. Falar besteira.

Incerta certeza
que gera a discussão.
Meu cafezal em flor
Acordes de violão.

Tuas conquistas, meu orgulho
Teu abraço, meu abrigo.
Tapetes de flor de jambo.
Saudades de um velho amigo.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

NA CORDA BAMBA - por Guaracy Muniz Carioca

Segue a alma encarnada equilibrando-se sobre a frágil corda da vida. Sente o peso do corpo por sobre os pés. Caminha lenta, vacilante, pois há névoas no vale e não se enxergam os horizontes.
Pode olhar para trás, mas não retornar. Doem as solas dos pés em contato com a fina e tesa corda. Dói o peso dos anos sobre os joelhos. Dói o peso das mortes dos amigos queridos por sobre os planos.

Vem o vento das mudanças com lufadas inesperadas, nos empurrando para fora da pequena e frágil zona de pequenos confortos que criamos.

Seguir adiante é necessário. É obrigatório. É imprescindível.

A vara é o contraponto. É o pesar no lado oposto ao que estávamos nos inclinando. É a opinião oposta, incômoda, indigesta. É o desconhecido batendo à sua porta. É o convite para sentar-se à mesa com teus inimigos, teus temores e traumas.

E a fé é o que te faz dar mais um passo quando você não quer nada além de saltar e cair e se libertar da gravidade a lhe ferir os pés, da desesperança a lhe ferir a mente, do vazio a lhe ferir o coração. A fé te faz dar mais um passo quando a névoa é espessa e já não se vê nem corda, nem vara, nem nada de interessante mais adiante.
É preciso apaixonar-se pela incerteza para receber o agridoce beijo do surpreendente. E o tropeço te empurra ao passo indesejado até que se perceba que tínhamos asas que nos foram cortadas desde o momento em que nascemos e que só a perseverança as trará de volta com toda sua plenitude original.
E a corda...A corda era apenas a borda do ninho.


sábado, 11 de janeiro de 2020

PARNASIANO - por Clayton Craveiro


Das musas do Monte Parnaso
De cada coisa um extrato, 
Meu pólo assimétrico, por assim ser eu trato. 
O grato pelo ser grato
não indica o consumado ato
Mas há de saber que em seu prato
há labor, há saber, há pecado
o androceu no geniceu
não há melhor transgressão
arsenikó kai thilykó
Etílico, eu como 
se eu isso, eu aquilo
Eu idílico,
Eu Apolo,
no Parnaso fico.




AMORA - por Clayton Craveiro

Deitado na cama, se a janela estiver aberta, consigo ver um pé de amoras. Não aquelas amoras que aparecem na foto de geleia de supermercado ou sache de suíte de hotel. Amoras silvestres pretinhas e compridinhas. As raízes estão do lado do muro do vizinho que não liga para o pé e nem se dá conta do quanto gosto de amoras. Melhor assim. 😋

No fim do outono a amoreira perde toda sua folhagem. Fica pelada como uma árvore fantasma. A lua quando nasce no horizonte no final da tarde costuma aparecer atrás dos galhos secos.

Em agosto começa a brotar para depois fazer a festa dos canários, pardais, tucanos, claytons, e outros passarinhos que aparecem por aqui.

Nesse calorão de janeiro, suas folhas já começam a amarelar. Mas ainda faz aquela boa sombrinha.

Passa o tempo e ela, em seu ciclo sagrado, nem se dá conta da felicidade plácida que dá aos outros com seus frutos, sombra ou simplesmente por estar ali.

A vida devia ser assim: uma amoreira. Ando muito bucólico...

 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

A ilustríssima visita - por Guaracy Muniz Carioca

M        Ele desceu dos céus, era dia e o céu estava todo azul. Ele desceu dos céus e emanava um certo brilho. Desceu lentamente em linha reta, como quem desce de um arranha-céu em um elevador invisível. E pousou sobre o solo em meio ao rush matinal. Não fez nenhum som. Nem levantou poeira. Pessoas apressadas indo para os seus trabalhos ou procurando outros trabalhos. Muitos não repararam que ele desceu do céu. Os que repararam acharam que era alguma apresentação de mágica, daqueles mágicos internacionais que fazem mágicas pela rua e surpreendem os transeuntes. Sua cor azul celeste fazia alguns terem certeza de que era um daqueles artistas que fazia-se de estátua. Mas ele estava nu. Completamente nu. E estava de olhos fechados. Parecia humano apesar de não possuir pelos em nenhuma parte do corpo. Devia ter uns dois metros de altura e seu porte musculoso era de quem fazia musculação há vários anos. Claro que alguns radares o detectaram enquanto descia. Poderia ser um asteróide ou um drone. Um astrônomo falou com certeza na voz:"É mais um daqueles balões meteorológicos que brilham e causam medo em pequenas cidades do interior...".

Mas não era...

        Algumas senhoras, defensoras da moral e dos bons costumes começaram a se irritar com aquele artista de rua despudorado, mostrando suas partes íntimas e bem dotadas e seu corpo musculoso e perfeito...ahh. E se recompunham e chamavam a atenção do guarda que estava ali perto. "Isso é atentado ao pudor!" "Há crianças passando por aqui! Isso é um absurdo!"
O guarda concordou. Foi se chegando flanqueando a situação pensando numa melhor abordagem. As senhoras observando tudo de longe.
-Senhor! - falou em tom severo e alto - Não é permitido ficar nu em público. E todo artista de rua precisa ter o alvará da prefeitura. Ponha uma roupa agora e me mostre seus documentos.
E ele não se moveu. Provavelmente os documentos que ele tinha já estavam ali à mostra. O guarda se incomodou com o total desprezo do meliante. Avaliou a possibilidade de imobilizá-lo. Pediu reforço no rádio.
-Senhor! - Berrou amedrontador - Não me interessa se você é maluco ou é surdo, eu quero que você deite AGORA no chão com o rosto para baixo e as mãos para trás! AGORA! - E sacou o 38 apontando para o marginal.
Um pequeno pânico começou a se formar. As senhoras que assistiam a tudo de longe resolveram se proteger dentro da pastelaria do chinês em frente. Vai que o maluco consegue pegar a arma do policial?

        E o homem azul abriu os olhos. E seus olhos irradiavam luz. Luz estelar. Luz de explosões atômicas que acontecem no centro de estrelas centenas de vezes maiores que o sol. Brilho radioativo de trítios e deutérios. E o homem azul virou sua cabeça mecanicamente para o guarda. Não precisava tê-la virado. Sabia da presença do guarda ali. Dele e dos outros sete bilhões oitocentos e vinte e três milhões quinhentos e quarenta e oito mil setecentos e trinta e nove seres humanos ainda vivos naquele exato milésimo de segundo. E sabia também o que cada indivíduo das outras oito milhões e setecentas mil espécies estavam fazendo naquele mesmo momento. Então o guarda soube que estava diante de algo muito maior. E baixou a  arma. E de seus olhos saíram lágrimas. E ele molhou seu uniforme.
        E o homem azul sabia das crianças ainda vivas sob os escombros na Síria. Sabia das mulheres que seriam mortas por apedrejamento por terem traído seus maridos. E sabia das crianças recém-nascidas chinesas que seriam estranguladas pelas próprias mães pelo simples fato de terem nascido meninas e não meninos. E sabia dos falsos profetas que enriqueciam por oferecer a seus fiéis falsas vantagens de se barganhar com Deus. E sabia da dor das árvores cortadas no meio da floresta, e das baleias desnorteadas pelos metais pesados e pelas explosões de mapeamento do fundo do mar a procura de petróleo. E sentia a morte lenta e dolorosa do filhote de golfinho embolado numa rede de arrasto abandonada no fundo do mar. E sentia todas as dores dos partos e dos suicídios e assassinatos que estavam acontecendo naquele momento.
E passeou pelos pensamentos humanos e notou que muitos desejavam o fim do mundo. Um mundo tão belo. Dos mais belos que ele havia criado, ao menos nesta galáxia. E com tantos mistérios ainda não desvendados e tantos remédios para tantas doenças ainda não identificadas pela ciência.
E Ele viu seus rios transformados em valas negras e fétidas. E suas inocentes criaturas sendo atropeladas por veículos tão pesados e barulhentos, e percebeu aqueles borrões repetidos feitos pelas rodas nas estradas...
Poderia destruir tudo e recomeçar do zero, mas estes que destruíam tudo eram uma minoria. Nada que um vírus não resolvesse em alguns anos.
Sabia que se ficasse ali tentariam prendê-lo, matá-lo, dissecá-lo, injetar-lhe substâncias, expô-lo a gases venenosos e radiação. Poderia ser a causa de uma terceira guerra mundial pelo simples fato de estar ali.
        E naquele dia alguns bebês desapareceram, algumas crianças desapareceram e alguns homens e mulheres puros de coração também desapareceram. Alguns pareciam que tinham morrido. Não. Haviam sido arrebatados. Uma flor rara foi descoberta, e um animal desconhecido foi salvo de um incêndio.
Contemplou mais uma vez esta sua criação, tão recente e tão cheia de problemas. Não iria eliminar todo o mal do mundo pois o homem é o exercício de caminhar pelo vale das tentações sem se contaminar. Pelo menos é o que eles dizem. E sabia que havia esperança no coração dos jovens. E sabia que Nostradamus estava errado. E quanto mais horror houvesse, mais a necessidade da caridade brotaria do coração dos homens de bem...

        O reforço policial havia chegado, e antes que tentassem cercá-lo ou neutralizá-lo, correu no meio da multidão como um louco, entrou por um beco e evaporou-se...

         Foi visitar os amigos antigos, tomar chang com um monge no Tibete, Jogar tablut com um filósofo na Lapônia, tomar uísque e ver o mar, da Calçada do Gigante em Bushmills com um físico aposentado na Irlanda do Norte, e oferecer alguns biscoitos de linhaça para uma menina sueca chamada Greta.